quarta-feira, 10 de março de 2010

CARTAS DE MALQUERER

_______________________________________________________________________________6 Abril 2009

Sei que já te disse adeus tantas vezes e outras tantas me despedi ao ver-te partir como os que partem e deixam uma pétala da rosa da roseira das saudades espalhada sobre a colcha da fria cama. Sei que tantas vezes suspirei que não viesses apelando a uma clemência inexistente no livro das crenças apenas para não sentir a dor de te ver partir e ficar a sós comigo sobre o lençol molhado do suor de nós.

Sempre que o telefone tocava e a tua voz me surpreendia tão meiga e quente como o verão mais ardente do vulcão do nosso querer o meu coração saltava de contente e eu que tanto desejara a tua partida ansiava agora como um louco a tua chegada. A janela já não tinha postigos para abrir de tanta ansiedade nem a porta ombreira onde bater. Escancarava a casa como quem rompe o biombo das nuvens com as mãos e deixa uma nesga de sol invadir a sensualidade de uma mistura de tudo o que se desenvolve em nós e faz almejar por algo surpreendente que nos faria perder no cubículo florido da paixão.

Breves minutos – porque a nossa história é feita de fugazes minutos – como as páginas brancas de um meticuloso jasmim ainda não inventado narram a aventura daquele apólogo que ainda não foi escrito e acredito tenha fim. O princípio é sempre o retorno do filho pródigo como ave de arribação às labaredas incandescentes dos meus braços ao braseiro incendiado dos meus beijos à fogueira em combustão da minha carne à lareira do nosso leito. Breves momentos antes da partida sentava-me sobre os ponteiros do relógio a contar os séculos – aqueles que passarão sem que te veja – tentava num fôlego atrasá-lo ficando com a estranha noção de que apenas adiava a tua permanência e o tempo que sobrava era a solidão.

Digo adeus e prometo amar-te desprendido e solto como um animal feroz que caminha pela selva numa atitude pretensiosa de querer ter a manha do leopardo a agilidade da gazela a beleza da zebra e a pujança do leão apenas para que em mim sintas a tua casa e o sol bafeje de astros o olhar. Digo adeus porque não aprendi a dizer mais nada enquanto espero no anfiteatro do sono pela vontade de querer que fiques e que nunca mais partas. Digo adeus para que possa manifestar a enorme alegria do regresso.

DESEJO MÍSTICO

___________________________________________________________24 Março 1984


Teu sexo é de oiro!

O pensamento

Baila ao sabor da chuva da vida

- Tens tanto para me dar…!

Gosto do teu corpo delgado

Que se confunde com os arbustos

Nos jardins floridos

Da minha sensualidade,

Que emana raios de luz

Pelos espaços sem fim

Mas sempre

Sempre perto de mim!

O amor baila à nossa volta

Entre as árvores

Virgens e rebeldes,

Exala o aroma

Duma moralidade sem princípios

Inspiro ao cântico

Duma realidade sem vícios!

Deixa-o dançar!

Dancemos com ele!

Nos teus olhos verdes de prado

A vida acontece

- Dança!

No meu corpo frágil

Abraça a eternidade!

Façamos de cada momento uma odisseia!

O âmago da ternura

Rompe do teu corpo jovem

São

Belo…

De ti

Da tua pele suave

Sem dor!

Ama-me

O mundo será cada vez maior!

António Casado

DISPO-ME DE MIM

_________________________________________03 Fevereiro 201

N

Acariciado pelo sol

Deixo a pele no estendal do vento

Para que as mãos aragem

A bafejem de sentimento…

Solto o coração às vagas

Deixo-o ser canoa de vela içada

Para que os lábios sódio

O insuflem de esperança…

Esparjo a carne no alecrim

Deixo-a marinar de odores

Para que a língua arbusto

A sacuda de amores…

Trago nas mãos a praia deserta

Onde me dispo de mim

Lanço-me na espuma que mareia

Junto à pueril areia

Do meu mar sem fim!

No cimo de um grão de argila

Iço o estandarte

De um beijo molhado

De espuma cálida.

Que poeta seria

Se despisse a fantasia

Como dispo o corpo

Desprovido de alma…!

António Casado

Lançamento do livro "Clamor do Vento"